A força da conversão

A Quaresma vai dando seus passos avançando em direção à Páscoa. Vamos ao encontro do Ressuscitado pela escuta e acolhimento de sua Palavra e pela conversão a que o Senhor nos convidou desde as Cinzas: “Convertei-vos e crede no Evangelho.” (Mc 1.15)

A segunda parte da Quaresma (domingos terceiro, quarto e quinto) em cada um dos ciclos litúrgicos tem um tom próprio marcado pelos Evangelhos que se leem neles: o Ciclo A tem um tom Batismal (se inicia um processo catecumenal que culmina com o batismo na noite de Páscoa), o Ciclo B incide mais no caminho da Cruz, e o atual Ciclo C insiste na necessidade da conversão e por isso nos próximos domingos – o filho pródigo e a adúltera – nos apresentarão, de perspectivas distintas, a misericórdia de Deus e também a nossa.

Neste III Domingo da Quaresma a Liturgia centra-se abertamente na conversão para a renovação batismal: “Se não vos converterdes, ireis morrer todos!” (Lc 13,5) Sim, porque a conversão não está ligada somente à Quaresma, mas deve marcar toda a nossa vida; na verdade, ela pertence essencialmente a nossa vida. O tempo que o Senhor nos dá para nos convertermos.

O importante é que, todos nós avaliemos se estamos aproveitando este tempo. Quais são os nossos propósitos de conversão? Converter-se quer dizer dirigir-se a Deus. Quando me volto a Deus e caminho em sua direção, encontro meu ser verdadeiro, meu eu real. Para Jesus a conversão consiste em “crer no Evangelho”, na alegre notícia da proximidade amorosa de Deus.

O verdadeiro significado de “metanóia” (palavra grega para conversão) é modificar o sentido, pensar diferente, também pode significar ver por trás das coisas, ver o próprio Deus e reconhecê-lo em todas as pessoas e em vivências cotidianas quando Ele nos fala.

Conversão quer dizer assumir o olhar de Jesus para reconhecer Deus em tudo que encontro, Deus que fala comigo por meio do encontro com uma pessoa, de uma experiência feliz, um infortúnio, um sucesso ou um fracasso, por meio dos meus pensamentos, de palavras que outros me transmitem. Quer dizer acreditar que Deus está em tudo próximo de mim, que Ele me fala, que age em mim.

A história do Povo de Deus e a história do cristianismo são para todos nós um convite à conversão. O encontro de Moisés com Deus no Horeb (cf. Ex 3,1-8a.13-15) ajuda-nos a compreender todo o caminho que devemos percorrer para verdadeiramente nos convertermos. Caminho que passa pela experiência do encontro ou do aproximar-se de Deus: “Moisés notou que a sarça estava em chamas, mas não se consumia, e disse consigo: ‘Vou aproximar-me desta visão extraordinária, para ver porque a sarça não se consome.’” (vv. 2-3) Primeiramente Moisés “se converte” a Deus que a partir deste fogo fala com ele. Deus sai de si mesmo para dar-se a conhecer a Moisés porque há uma situação de sofrimento de seu povo frente à que Ele não pode permanecer indiferente: “Eu vi a aflição do meu povo que está no Egito e ouvi o seu clamor por causa da dureza de seus opressores. Sim, conheço os seus sofrimentos. Desci para libertá-lo…” (vv. 7-8) Assim é Deus. Não é um Deus que cause o sofrimento, mas sim que busca os meios para terminar com ele.

No Evangelho (cf. Lc 13,1-9) Jesus nos indica por onde deve ir a força da conversão em nossos dias. Parte da interpretação de dois trágicos acontecimentos que naquela época sacudiram a vida do povo e que também se podem dar entre nós na atualidade. Em nossa sociedade brasileira estamos vivendo acontecimentos muito duros para a verdadeira convivência serena e capaz de construir um país mais pacífico, justo e tolerante. A comunidade cristã nesta Quaresma, teríamos que deixar-nos  iluminar pelo que hoje lemos neste fragmento do evangelho de Lucas.

Vieram a Jesus algumas pessoas que lhe contam os fatos ocorridos (a repressão cruel, matança que Pilatos  realizou de alguns galileus que se haviam rebelado, e a morte de outros como consequência do desabamento da torre de Siloé). Jesus trata de fazê-los compreender que estes acontecimentos não é nenhum “castigo de Deus”, como se o mal fosse efeito da punição divina. Então Jesus vai fazer uma releitura dos fatos, uma leitura na perspectiva da conversão e contou-lhes a parábola da “figueira estéril”.

Temos que saber fazer uma leitura crente dos acontecimentos. Convém perguntar-se: O que Deus quer nos dizer em tudo isso! Ler a história humana na ótica de Deus. Até parece dura a expressão de Jesus: “Se não vos converterdes, morrereis todos do mesmo modo.”(v. 5) Mas, a conversão não é uma ameaça, é um convite. Ele quer conseguir que os seus ouvintes reflitam e se deem conta que o básico no seguimento é a conversão pessoal. Fica claro que não há claramente bons e maus, ou os do bem e os do mal; todos estamos necessitados de conversão; ninguém pode dizer que está livre de culpa.

Os acontecimentos, os fatos dolorosos, as desgraças ou catástrofes não devem suscitar em nós a busca de presumíveis culpados, mas devem representar uma ocasião para refletir, para lê-los na perspectiva da fé.

Para Lucas, o evangelista da misericórdia, ele apresenta um Deus paciente, tolerante com a fraqueza humana, compreensivo com a dureza da nossa mente e do nosso coração. Deus sabe que converter-se de verdade não é fácil, nem coisa de umas horas ou dias. Porque conhece o interior da pessoa, Ele sabe esperar; quando vê uma disposição sincera para a conversão não só espera, atua na consciência humana para que se converta.

A “parábola da figueira que não produz fruto” (cf. vv. 6-9) é para que todos os que a ouvem a apliquem a si mesmos. A maldade não está só nos outros, mas também em nós mesmos. O mais importante é dar-nos conta da paciência que Deus tem com cada um de nós: “O Senhor é indulgente, é favorável, é paciente, é bondoso e compassivo.” (Sl 102,8) O Senhor se deixa levar destes sentimentos diante dos que não dão fruto.

Jesus faz um convite para considerar não só a Quaresma, mas toda a nossa vida como um tempo de graça que é concedido, aproveitemos estas circunstâncias para converter-nos e darmos fruto, convida-nos a mudar o rumo da nossa vida e a aproveitar todos os momentos para corrigir a nossa atuação, a mudarmos o nosso estilo de vida. E converter-se não é melhorar um pouco, rezar um pouco mais, mas sim mudar a nossa maneira de pensar e de agir, comprometendo-nos com Jesus e testemunhando com gestos libertadores de acolhimento, de serviço, de promoção das pessoas que nos cercam; na atenção, compreensão, tolerância, paciência e esperança que fazem parte da missão evangelizadora a que o Senhor nos chama.

A conversão tem muito que ver com a mudança de mentalidade, de paradigma, de visão das coisas e, com isso e como consequência disso, mudança de conduta, de vida interior, de métodos e caminhos.

Também está claro que temos que refletir que ideias têm de Deus? Temos mesmo a certeza de que Deus é assim, ou não se trata antes de uma projeção um deus feito à nossa imagem e semelhança? Ao contrário, o Deus revelado por Jesus não é vingativo, justiceiro, castigador, mas tudo o contrário: é um Deus que nos ama, nos compreende, nos desculpa, nos perdoa. Atende ao vinhateiro que lhe pede: “Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto.” (vv. 8-9) Se ainda não decidimos converter-nos, modificando nossos pensamentos, nossos projetos, nossas atitudes, chegou a hora de fazê-lo agora.

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