A Campanha da Fraternidade

Construída a partir de experiências locais de luta da Igreja Católica no Nordeste brasileiro, com início em Natal (RN), em 1961-62, apoiada na atuação de padres integrantes da Cáritas Brasileira, a Campanha da Fraternidade (CF) é, desde dezembro de 1963, quando lançada em âmbito nacional, alicerçando-se no Concílio Vaticano II (em curso, à época), uma iniciativa de evangelização assumida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com repercussão internacional, e consolidada nas Igrejas Particulares brasileiras, conforme suas Diretrizes Gerais da Ação (Pastoral) Evangelizadora.

A CF, por sua origem e natureza, constituída no âmbito das discussões sobre fé e vida, à luz do Evangelho e do Magistério da Igreja, de modo peculiar, em sua Doutrina Social, tem mobilizado, ano a ano, um número crescente de cristãos em vista do debate orgânico no enfrentamento aos diversos problemas que se apresentam como desafios na edificação de uma sociedade justa e igualitária, sustentada no amor do qual a solidariedade – fermento da fraternidade – é um sinal concreto.

Desde 1964, com a primeira CF, até 2017, tivemos 54 campanhas, distribuídas em 3 fases históricas, conforme especificações eclesiais, e, cada qual, por sua temática, apontando a fraternidade como caminho na construção de soluções necessárias aos problemas indicados nos temas.

Neste contexto, a CF de 2018 é quinquagésima quinta (55ª) campanha e, a nosso ver, por simples análise estrutural, inaugura uma NOVA FASE, pois, mesmo que mantendo-se na perspectiva de uma “Igreja (que) se volta para situações existenciais do povo brasileiro” (que funda a 3ª fase), está, agora, impulsionada pelas conclusões da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, que aconteceu em Aparecida, Brasil, no período de 13 a 31 de maio de 2007; e pelo renovado ardor missionário-pastoral do Papa Francisco, implicando em uma exigência de maior “abertura” à diversidade ministerial das paróquias, ao apostolado do laicato (preocupando-se firmemente com as inter-relações fé e vida, no campo político) e à missão local das Igrejas Particulares (“Igreja em saída” que vence o hodierno conforto da “pastoral de manutenção”).

Os objetivos permanentes da CF convergem para apresentar e problematizar, anualmente, um tema de caráter sociocultural, político, econômico e/ou eclesial (como na 1ª fase, entre 1964-1972), com ou sem um viés ecumênico, fundados a partir de 3 enunciados, centrados nos verbos “despertar”, “educar” e “renovar”:

  1. a) DESPERTAR o espírito comunitário e cristão no povo de Deus, comprometendo, em particular, os cristãos na busca do bem comum;
  2. b) EDUCAR para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor, exigência central do Evangelho;
  3. c) RENOVAR a consciência da responsabilidade de todos pela ação da Igreja na evangelização, na promoção humana, em vista de uma sociedade justa e solidária (todos devem evangelizar e todos devem sustentar a ação evangelizadora e libertadora da Igreja).

A CF é lançada, anual e nacionalmente pela CNBB e seus Regionais; e pelas dioceses e paróquias, na Quarta-feira de Cinzas, conclamando o povo de Deus à constante conversão.

QUARESMA. Por sua gênese e caráter, e por se fundar como uma campanha, ou seja, prevendo a mobilização necessária pela “participação popular” com ações sistemáticas e focais, a CF está inserida dentro de um período de tempo considerado suficiente e adequado para o debate público sobre o tema proposto, “durando”, assim, os 40 (quarenta) dias do tempo litúrgico da Quaresma (Cf. AT 1,3), que, por sua vez, é constituída por 5 (cinco) domingos mais a Semana Santa, indo, portanto, da Quarta-feira de Cinzas até a Quinta-feira Santa, antes da Missa que rememora a Ceia do Senhor.

A Quaresma é um caminho penitencial que fazemos rumo à ressurreição do Senhor. Por isso, ela está inserida dentro do Ciclo da Páscoa e, como tempo litúrgico, pede a urgência na conversão do coração, ressaltando que converter-se exige (i) consciente mudança de vida, (ii) manifestação singela e firme de arrependimento e (iii) reafirmação do propósito de fidelidade. Assim, a Quaresma é o início do caminho da constante conversão que, pelo exame de consciência, requer um relacionamento pessoal com Jesus Cristo – ressuscitado depois da paixão e morte de cruz – que, pela força do Espírito Santo, converte nosso coração, transformando-nos em testemunhas.

Na Quaresma, a Igreja propõe a concreta experiência de serviço, reunindo, singelamente, sem alardes, os gestos de oração, jejum e esmola. Aliás, estes três elementos são experiências de desapego, de desapropriação de si, de partilha, de fé na transformação humana pelo encontro com Deus – no outro, no irmão – e que acontece quando, (a) humildemente, oramos, e (b) em silêncio, jejuamos e, quando (c) amamos com convicta caridade, ampliando o dito popular: “Fazer o bem, sem olhar a quem” e sem ser visto por ninguém. Neste sentido, a Quaresma, como itinerário de penitência e reflexão, é, também, caminho para o encontro com o outro, como na atitude do “Bom Samaritano”.

Embora o tema da CF seja objeto de inúmeras tematizações posteriores, especialmente nas demais (grandes) campanhas (a Missionária e a de Evangelização), ele é trabalhado com maior ênfase no citado período quaresmal, pois, inserido na liturgia católica penitencial, o seu alcance, em tese, é melhor assimilado, dado o momento de proposição reflexiva sobre a vida e o convite à transformação das realidades temporais à luz do Evangelho.
CF DE 2018. Neste contexto litúrgico e histórico-social, a CF deste ano traz, como tema, a discussão sobre “Fraternidade e superação da violência”, e, como lema, o trecho bíblico da comunidade de Mateus (23,8): “Vós sois todos irmãos”.

Como sabemos, o tema da CF traz sempre um problema associado à afirmação da fraternidade, e cujo lema, nascido da experiência de inserção da Igreja, é sua proposta de PRIMEIRO PASSO na construção de solução à problemática, considerando a Sagrada Escritura e o Magistério Eclesial. Neste sentido, a Igreja entende que a superação da violência começa com a compreensão de que somos todos irmãos, propondo, assim, o que Jesus indicou: a fraternidade como modo de vida.

Como a fraternidade também é uma construção cotidiana e permanente, a Igreja reconhece, a partir do texto bíblico que indica o lema, que é, justamente na fraternidade, que, reunidos, podemos construir todos os demais passos precisos para uma cultura de não violência, com a consolidação consequente de políticas públicas que garantam a efetivação dos direitos humanos na minimização das desigualdades.

A CF de 2018, focada na superação da violência e não na especificidade da violência, traz, como objetivo geral, um enunciado propositivo, indicando a “cultura”, em 3 (três) elementos, como solução ao problema denunciado. Vejamos o objetivo: “Construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência”. Pelo dito, na visão eclesial, a fraternidade é o ponto de partida e o caminho é a cultura: cultura da paz, cultura da reconciliação e cultura da justiça.

Neste caso, além da necessidade de entendermos o que é “cultura” (na especificidade deste contexto), devemos compreendê-la correlacionada a estes 3 (três) modos particulares de experiência de inserção nos quais a Igreja tem (se) convocado a atuar pastoralmente.

É preciso, ainda, entender o conceito de violência, ampliando sua abrangência e implicações, e estudar sobre a diversidade de formas pelas quais ela se torna (in)visível socialmente, concebendo-a como um fenômeno plural, pois violência vem de violência e gera violência, e superá-la é um desafio contínuo que reclama ação planejada, sistemática e progressiva, pois tem fundamento cultural e institucional, e uma base subjetiva (em cada pessoa) e intersubjetiva (nas relações interpessoais), com vínculos profundos nos conflitos inter-relacionais que geram os confrontos que, por si, negam e evitam o diálogo.

Tendo raiz nas inter-relações humanas, a violência tornou-se sistêmica, ou seja, não tem mais uma única origem ou uma única causa, e suas consequências são extensivas e interconectadas a inúmeros fatores de diversas ordens, cada qual com suas implicações. Neste ínterim, a cultura da paz, da reconciliação e da justiça indica a necessidade continuada de processos de construção de políticas públicas para a superação da violência pela não violência.

Para a Igreja, no debate sobre o tema da violência, a fraternidade – como estilo ou modo de vida – é o PRIMEIRO PASSO na superação deste grave problema que atinge todas as esferas da vida – humana e animal -, mas, enfaticamente, exorta: este não pode ser a única etapa. A fraternidade nos conduz necessariamente ao enfrentamento da violência pela não violência; e, indispensavelmente, implica em articulação política – reunindo fé e vida – nos campos de concepção, formulação e implementação/implantação de políticas públicas. Aliás, é precisamente este aspecto, que chamamos de SEGUNDO PASSO ou PASSO INTERMEDIÁRIO, que demanda percursos frequentes de formação, em preparação às intervenções imprescindíveis na defesa de direitos, pois a negação de direitos já se constitui violência e é, indiscutivelmente, fonte geradora de outras incontáveis formas de violência.

EM PREPARAÇÃO. Como primeira etapa de organização da CF, sugerimos, tanto às Paróquias quanto às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), Novas Comunidades e Pequenas Comunidades, que partam do estudo do texto-base, em rodas de leitura e conversa, e possam pensar em ações específicas. Portanto, abaixo, enumeramos algumas dicas, a nosso ver, necessárias à consolidação da Campanha.
1. Criar uma equipe de articulação e organização da CF;
2. Estudar coletivamente o texto-base da CF;
3. Planejar diversos momentos de leitura e estudo do tema;
4. Pensar na inserção litúrgica do tema;
5. Produzir subsídios para distribuição nas missas e celebrações da Palavra, nos grupos de catequese, nas reuniões regulares e em encontros específicos;
6. Divulgar a CF nas redes sociais mantidas pelas Paróquias e Comunidades, diversificando gêneros textuais;
7. Promover a CF nos meios de comunicação tradicionais, com especialmente atenção às rádios e TVs locais e regionais, com encaminhamento de releases;
8. Pensar em reflexões temáticas específicas para escolas, universidades e associações de bairro e/ou culturais, integrando as linguagens da arte.

Por fim, ressaltamos que a CF de 2018 está inserido dentro de um contexto celebrativo fundamental para a Igreja no Brasil: o Ano Nacional do Laicato (ANL).
Iniciado em novembro de 2017, com término em novembro de 2018, o ANL objetiva promover a importância do apostolado laical no seio da Igreja e, de modo especial, relembrando a identidade, vocação e missão dos leigos e leigas no mundo, partindo da Igreja. Portanto, nas ações da CF, vejamos as especificidades do trabalho do laicato para a superação da violência.

Questões para reflexão

A equipe responsável pela CF reúne a comunidade e coordena a leitura e discussão do texto, realizando dinâmicas (previamente planejadas), e refletindo sobre as questões propostas e outras que possam surgir na roda de conversa. A equipe anota o resultado e os encaminhamentos.

1 Qual a CF que mais me marcou? Por quê?
2 Nos últimos anos, tenho participado da CF? Se não, por quê? Se sim, como?
3 Como a comunidade se organiza para realizar a CF?
4 Quais as ações que a comunidade costuma realizar durante a CF?
5 Pensando na CF de 2018, que ações a comunidade poderá realizar?

 

Autor:
Assis Souza de Moura, OFS

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